Quando falta água, o que mais fica em risco?

Pedro Oliveira, especialista em Investigação e Gestão de Riscos, Licenciado em Ciências Sociais com especialização em Sociologia, formador e consultor

Uma emergência só termina verdadeiramente quando aprendemos alguma coisa com ela. E talvez devêssemos aproveitar este episódio para fazer uma espécie de inventário invisível da nossa cidade.

Há coisas que só percebemos quando deixam de acontecer. Abrir a torneira, por exemplo, aquele pequeno gesto sem importância que fazemos ainda meio a dormir, o copo de água, o café, o duche, a água que corre e leva consigo o resto da noite, a gordura do jantar, o cheiro do corpo, as mãos sujas da rua e, de repente, não corre nada.

Fica ali o silêncio da canalização, uma espécie de vazio doméstico que parece pequeno porque acontece dentro de casa, entre quatro paredes, mas que depressa se espalha pela cidade como se a cidade tivesse uma garganta e alguém lhe tivesse apertado o pescoço, primeiro uma torneira, depois outra, depois o café da esquina que já não consegue lavar os copos, o restaurante que começa a contar garrafões, o trabalhador que pergunta como vai lavar as mãos, a senhora que guarda água na banheira, o vizinho que enche garrafas porque amanhã talvez não haja, e aquela pergunta que ninguém gosta muito de fazer porque parece exagerada até ao dia em que deixa de ser, e se, no meio de tudo isto, houver um incêndio?

Durante algumas semanas deste verão, Almada conheceu esse talvez.

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Não foi uma imagem de deserto, não foram torneiras secas durante dias nem uma cidade parada.

Foi algo mais subtil.

A água passou a ter horário.

Passou a ter regras.

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Passou a ser uma coisa que se planeava.

Em julho, perante a pressão extraordinária sobre o sistema de abastecimento, os SMAS de Almada ativaram um Plano de Contingência e o município decretou uma Situação de Alerta. Foram implementadas medidas de redução do consumo, redução de pressão e interrupções programadas do abastecimento, chegando a existir cortes totais entre as 22h e as 06h em diferentes zonas do concelho.

Para quem vive em Almada, a crise teve geografias diferentes.

Na Charneca da Caparica, na Sobreda, no Lazarim ou na Costa da Caparica, a pressão sobre o sistema fez-se sentir de maneira particularmente evidente. E a Costa tem ainda aquela particularidade que todos conhecemos: há uma Almada que se mede pelos residentes e outra que, sobretudo no verão, chega com as toalhas de praia, os carros, os restaurantes cheios e milhares de pessoas que aparecem durante algumas horas e depois desaparecem.

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A cidade cresce sem necessariamente crescer nos mapas.

E a água tem de acompanhar esse crescimento.

Segundo os dados divulgados pelos SMAS, no primeiro semestre deste ano o consumo de água no concelho aumentou 4,3% face ao mesmo período de 2025, com aumentos particularmente expressivos em algumas freguesias.

Não é preciso ser especialista em sistemas de abastecimento para perceber a equação.

Mais calor.

Mais pessoas.

Mais consumo.

Uma capacidade de captação que não cresce à mesma velocidade.

E uma rede que, a determinada altura, deixa de conseguir responder como respondia antes.

Mas é aqui que a minha profissão me obriga a fazer uma pergunta diferente.

Quando uma cidade entra em contingência, estamos apenas a gerir a falta de água ou estamos também a gerir os riscos que aparecem por causa dela?

Porque uma cidade não é uma torneira.

É um sistema.

A pergunta que quase ninguém fez

Há uma pergunta que me ficou na cabeça durante os cortes.

Não sei se foi feita pelas entidades responsáveis. Não encontrei, pelo menos publicamente, uma resposta que permita dizê-lo.

É esta:

Durante os períodos de interrupção ou redução da pressão da rede pública, foram verificadas as condições de funcionamento dos hidrantes exteriores e dos sistemas de segurança contra incêndios que dependem dessa rede?

Não é uma pergunta alarmista.

É uma pergunta de segurança.

E convém explicar porquê.

Quando vemos um marco de incêndio numa rua, temos tendência para pensar que ali está uma reserva de segurança: se houver um incêndio, os bombeiros ligam a mangueira e têm água.

Só que não funciona assim de maneira tão simples.

Um hidrante não é apenas um objeto vermelho ou amarelo plantado no passeio.

É um ponto de uma rede.

E uma rede depende de pressão, de caudal, de alimentação e de continuidade.

Se a rede pública é interrompida ou sofre uma redução significativa de pressão, aquilo que interessa saber não é apenas se o hidrante continua fisicamente no mesmo lugar.

É saber se continua operacional para o cenário para o qual foi previsto.

Tem água?

Tem pressão?

Tem caudal?

Está acessível?

A zona de abastecimento está em funcionamento?

Existe outro ponto disponível?

São perguntas banais para quem trabalha com avaliação de risco.

Mas são perguntas que só aparecem quando pensamos para além do acontecimento imediato.

E dentro dos edifícios?

Existe ainda uma segunda questão.

Em determinados edifícios de menor categoria de risco existem redes de incêndio armadas com bocas do tipo carretel.

São aqueles equipamentos que vemos muitas vezes instalados junto às caixas de escadas ou nos corredores dos edifícios e que permitem uma primeira intervenção sobre um incêndio.

Em determinadas condições previstas na regulamentação, estas redes podem ser alimentadas diretamente pela rede pública.

E aqui aparece novamente a palavra que considero fundamental:

Continuidade.

A segurança contra incêndios não se faz apenas instalando equipamentos.

Faz-se garantindo que, quando alguém precisa deles, eles funcionam.

Não estou a afirmar que os carretéis de Almada tenham deixado de funcionar.

Não tenho dados para o afirmar.

Mas a existência de cortes programados na rede pública deveria levar-nos a uma pergunta simples:

Foi avaliado o impacto desses cortes nos sistemas de segurança contra incêndios que dependem da rede pública?

E, se foi, que medidas de mitigação foram consideradas?

Não é procurar culpados.

É procurar vulnerabilidades.

E estas duas coisas são muito diferentes.

A cidade que bebe, come e trabalha.

Entretanto, a água não desapareceu apenas das casas.

Entrou também na economia.

Um restaurante sem água não tem apenas um problema de conforto.

Tem um problema de funcionamento.

Lavar as mãos, limpar superfícies, lavar utensílios, preparar alimentos, manter instalações sanitárias em condições, tudo isto depende de água.

Uma pastelaria pode não conseguir funcionar normalmente.

Um café pode não conseguir lavar a loiça.

Um restaurante pode ter de reduzir a operação ou fechar.

E aquilo que parece uma simples interrupção doméstica transforma-se numa questão de segurança alimentar e de saúde pública.

Foi isso que alguns comerciantes de Almada viveram este verão.

E há aqui uma dimensão que merece ser lembrada: para uma grande empresa, uma interrupção pode significar um plano de contingência, uma reserva, um fornecedor alternativo.

Para o pequeno café da rua, pode significar simplesmente baixar a porta.

A resiliência também tem uma dimensão económica.

Mas nem todos sofrem da mesma maneira.

Há ainda quem viva a crise de uma forma que não vemos nas redes sociais.

Uma família jovem consegue encher alguns garrafões.

Uma pessoa idosa pode não conseguir transportar água.

Uma pessoa dependente pode precisar de água para cuidados básicos.

Um lar de idosos não pode simplesmente dizer aos seus residentes para aguardarem até às 6h da manhã. E é significativo que os próprios SMAS tenham criado respostas específicas para clientes sensíveis, incluindo a disponibilização de reservatórios de água a instituições prioritárias.

Porque uma das primeiras regras da gestão de risco é esta:

O mesmo perigo não produz o mesmo risco em todas as pessoas.

Depende da vulnerabilidade.

Depende da exposição.

Depende da capacidade de resposta.

E há a água que se perde antes de chegar a nós.

Falamos muito do consumo.

Falamos menos das perdas.

Mas, numa situação de escassez, cada litro perdido na rede é mais do que uma ineficiência.

É capacidade de resposta que desaparece. Os SMAS têm vindo a desenvolver programas de redução de perdas, com zonas de medição e controlo, deteção de fugas, telegestão, remodelação de condutas e outras medidas.

É um trabalho pouco visível.

Não rende fotografias.

Não aparece quando abrimos a torneira.

Mas talvez seja uma das formas mais importantes de preparar a cidade para aquilo que vem aí. Porque a resiliência de uma rede não se constrói apenas quando falta água. Constrói-se quando ainda há água.

E talvez esta seja a questão mais importante.

A crise deste verão acabou por ser ultrapassada sem que Almada tivesse entrado num cenário de colapso.

As reservas recuperaram.

Foram abertos novos furos.

Foram anunciados investimentos na captação e no armazenamento.

As medidas foram progressivamente aliviadas.

Isso é importante e deve ser reconhecido.

Mas uma emergência só termina verdadeiramente quando aprendemos alguma coisa com ela. E talvez devêssemos aproveitar este episódio para fazer uma espécie de inventário invisível da nossa cidade.

Sabemos onde estão os hidrantes?

Sabemos quais estão ligados a zonas da rede que podem sofrer interrupções?

Sabemos quais os edifícios cuja segurança contra incêndios depende diretamente da rede pública?

Sabemos quais as instituições que não podem ficar sem água sequer durante algumas horas?

Sabemos quais os estabelecimentos comerciais que conseguem manter atividade em situação de corte?

Sabemos onde estão as maiores vulnerabilidades da rede?

E, sobretudo, sabemos o que acontece quando duas coisas que julgávamos independentes deixam de funcionar independentemente?

Porque esse é o verdadeiro problema do risco.

As coisas raramente falham sozinhas.

Uma falha na captação pode provocar uma redução de reservas.

A redução de reservas pode obrigar à redução da pressão.

A redução da pressão pode obrigar a cortes.

Os cortes podem afetar famílias, comércio e serviços.

E, no limite, podem criar condições diferentes daquelas para as quais determinados sistemas de segurança foram originalmente concebidos.

É assim que nasce o chamado efeito cascata.

Não há um grande desastre.

Há pequenas alterações sucessivas.

Até ao momento em que percebemos que o sistema já não está a funcionar como funcionava ontem.

A Almada que vem aí.

Talvez esta crise tenha sido excepcional.

Oxalá.

Mas há uma pergunta que já não podemos evitar.

E se não tiver sido?

E se os verões forem progressivamente mais quentes?

E se a população flutuante continuar a aumentar?

E se a pressão sobre os recursos hídricos se tornar mais frequente?

E se aquilo que este ano foi uma situação de contingência voltar a acontecer daqui a dois ou três anos?

Nesse caso, não estaremos perante uma emergência.

Estaremos perante uma nova condição de funcionamento da cidade.

E isso exige outra coisa.

Exige planeamento.

Exige redundância.

Exige reservas.

Exige monitorização.

Exige articulação entre quem gere a água, quem gere a emergência, quem combate incêndios, quem fiscaliza a segurança alimentar, quem gere equipamentos sociais e quem planeia a cidade.

Porque a água não pertence apenas aos SMAS.

A água pertence ao funcionamento de Almada.

E talvez seja por isso que, quando a torneira finalmente volta a correr, não devêssemos limitar-nos a abrir o chuveiro e esquecer.

Devíamos fazer uma pergunta.

Uma pergunta simples, talvez incómoda, mas necessária:

Se amanhã voltarmos a ficar sem água, o que é que deixará de funcionar que ainda não sabemos que depende dela?

É aí que começa a verdadeira gestão do risco.

Não quando a água falta.

Antes.

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