O que é viver uma Cidade?

ANTE- CRÓNICA

Rita Tormenta, escritora e poeta                                                                                                                 

É imprescindível já ter beijado, cantado, vomitado e chorado nas pedras da calçada, no meio da Rua e ser-se assaltado por essas memórias quando se caminha manhã adentro.

Topografias privadas.

 

Afinal, o que é viver uma Cidade?

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Há quem durma e acorde anos a fio num mesmo lugar e não chegue nunca a habitá-lo.

Pernoitar, ter residência fiscal, ser proprietário, habitar e viver, são Tudo formas e graus diferentes de  envolvimento com a geografia.

Viver num qualquer lugar implica que algumas esquinas nos possam delatar.

Para viver numa terra Temos que saber coisas práticas, onde se compra pão, Flores, peixe fresco, ervas de Cheiro, medicamentos, kebabs, é preciso aprender onde se apanham os autocarros,onde ficam as escolas, a esquadra, o hospital, a Loja de ferragens mas para existir e isso fica num outro Lugar,  num Lugar diferente daquele onde nos limitamos a sobreviver, para existir é preciso saber onde se vê o Fogo de artifício, onde se ouve música, onde se pedem livros emprestados, onde se Vai ao teatro, onde se vê a melhor vista.

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Para viver num Lugar há que conhecer os seus loucos, sejam afáveis ou enfurecidos, os mendigos, as velhas alcoviteiras, os poetas, os tocadores de contrabaixos e bacias, a senhora da farmácia, a Chinesa que nos chama Amiga e nos oferece sempre hoirtelã, a Dona da retrosaria, o bando de putos que cruzam a Rua a andar de skate ao final do dia, os passadores de erva, os velhos resmungões e saudosistas, os vendedores de banha da cobra, a mulher que cuida dos Gatos de Rua, os Pescadores de polvos e tainhas, a bailarina que perdeu as graças do palco, a cantora que ensaia a desoras é igualmente importante frequentar com assiduidade o restaurante mais barato, ter uma mesa preferida no café mais simpático e alguém que saiba que a nossa bica é curta.

É imprescindível já ter beijado, cantado, vomitado e chorado nas pedras da calçada, no meio da Rua e ser-se assaltado por essas memórias quando se caminha manhã adentro.

Ter-se uns quantos vizinhos incomodados e outros tantos incómodos.

Uma sucessão de baptismos inaugura a possibilidade de afirmar eu vivo aqui.

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(Nos próximos meses andarei por aqui a contar-vos coisas da Minha Topografia privada, Almada como eu a vivo, os meus lugares, as minhas pessoas e as pequenas histórias, deixa-vos -ei sempre uma indicação musical)

 

Indicacão musical: Sampa

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