Natércia Anjos, membro do Movimento Democrático de Mulheres (MDM)/ Núcleo de Almada
Mais do que um dia comemorativo, o 8 de março é um dia de luta, de afirmação política e de mobilização social. É o dia em que dizemos basta à desigualdade, basta à desvalorização das mulheres, basta aos retrocessos.
No âmbito do Dia Internacional da Mulher, que se assinala a 8 de Março, o Núcleo de Almada do MDM – Movimento Democrático de Mulheres afirma, uma vez mais, a necessidade urgente de tornar visíveis as desigualdades que continuam a marcar a vida das mulheres no concelho de Almada, como, de uma forma ou outra, em todo o País.
Torna‑se hoje evidente que direitos que julgávamos garantidos têm sido postos em causa. Uma das expressões mais graves desta realidade é o acesso à saúde, particularmente à saúde sexual e reprodutiva. Os sucessivos encerramentos de urgências obstétricas, a falta de equipas completas e a instabilidade dos serviços hospitalares atingem de forma transversal toda a Península de Setúbal. As mulheres de Almada conhecem bem o sentimento de incerteza quando surge uma urgência e não se sabe que maternidade está a funcionar naquele dia. Situação mais grave estão a viver as mulheres do Barreiro, Moita ou Montijo, confrontadas com o encerramento permanente das urgências obstétricas do Hospital do Barreiro.
A consequência dramática destas falhas são episódios que não podem ser normalizados: partos em ambulâncias, deslocações intermináveis entre hospitais e até bebés que nascem na via pública, porque a resposta que deveria ser garantida pelo Serviço Nacional de Saúde não está disponível. São situações de enorme violência emocional para as mulheres e para as famílias, e que evidenciam uma profunda desvalorização das suas necessidades. A maternidade, que deveria ser acompanhada com segurança e humanidade, é muitas vezes vivida com medo, improviso e risco.
As desigualdades não se limitam à saúde. Também a mobilidade, essencial para trabalhar, estudar, cuidar e participar na vida comunitária, é marcada por dificuldades que recaem de forma particular sobre as mulheres. No eixo Setúbal–Almada–Lisboa, os problemas na Fertagus são recorrentes: atrasos, supressões, carruagens sobrelotadas e condições de viagem que ficam muito aquém do que seria digno. Para muitas mulheres que dependem diariamente deste transporte, cada deslocação representa mais um obstáculo num dia já sobrecarregado de responsabilidades profissionais, familiares e sociais.
Estas dificuldades somam‑se à realidade laboral que continua a penalizar as mulheres. O pacote laboral actualmente em discussão levanta sérias preocupações quanto ao futuro de direitos fundamentais, abrindo portas a maior instabilidade, precariedade e desregulação de horários. As mulheres, que já hoje se encontram em grande número nos sectores mais precarizados e com salários mais baixos, serão inevitavelmente das mais afectadas se avançarem medidas que fragilizam ainda mais quem já vive em condições vulneráveis. A conciliação entre vida profissional, familiar e pessoal, tarefa que ainda recai desproporcionalmente sobre as mulheres, tornar-se-á ainda mais difícil.
É por tudo isto que o 8 de Março, mais do que um dia comemorativo, é um dia de luta, de afirmação política e de mobilização social. É o dia em que dizemos basta à desigualdade, basta à desvalorização das mulheres, basta aos retrocessos. É um dia para reivindicar direitos, exigir respostas e reafirmar que não aceitamos nenhuma forma de retrocesso social, que não aceitamos um único passo atrás.
O MDM – Movimento Democrático de Mulheres tem estado presente em todas estas lutas, em Almada e em todo o distrito, ao lado das mulheres que diariamente enfrentam estas dificuldades. Sabemos que a transformação social não nasce do silêncio, mas da participação activa, da capacidade de denúncia e da força colectiva.
Assim, apelamos a todas as mulheres de Almada, e a todas as pessoas solidárias com a causa da igualdade, a participarem nas iniciativas do Dia Internacional da Mulher e, particularmente, na Manifestação Nacional de Mulheres. Que o próximo dia 8 de Março seja, mais uma vez, um momento de afirmação colectiva, de esperança activa e de determinação. Que enchamos as ruas com a nossa voz e com a nossa força para exigir um futuro mais justo e digno para todas.
Porque quando as mulheres se levantam, toda a sociedade avança. Porque os nossos direitos não estão garantidos, têm de ser defendidos, têm de ser conquistados. E porque o futuro que queremos se constrói na rua, na luta e na voz de cada uma de nós.






