Entre a Santa Compaña galega e a Procissão das Almas portuguesa existe um imaginário comum sobre a morte, a ausência e a passagem entre mundos. É nesse território que nasce “A Espera do Baleiro”, criação do coreógrafo galego Xián Martínez, que apresenta a peça em Almada, nos dias 25 e 26 de setembro, no âmbito da Quinzena de Dança.
Para o artista, esta apresentação é uma oportunidade para continuar a fazer o que mais gosta: “conectar com as audiências e fazê-las refletir sobre temáticas e realidades que atravessam a nossa sociedade”, afirma Xián Martínez. Em entrevista ao ALMADENSE, o coreógrafo fala sobre a ligação entre as tradições galegas e portuguesas, o processo de criação da peça e o trabalho com as intérpretes da Companhia de Dança de Almada.
“A Espera do Baleiro” parte de tradições e de uma herança cultural comum entre Portugal e a Galiza. Como surgiu a ideia de explorar esta ligação através da dança?
Como criador nascido na Galiza, para mim é muito importante que cada criação que desenvolvo carregue, de alguma forma, a identidade territorial do meu projeto artístico. O facto, além disso, de a Xunta de Galicia, através do Centro Coreográfico Galego, ser agente coprodutor desta criação levou-me ainda mais a procurar um ponto de encontro entre dois territórios historicamente ligados através da cultura, da língua e da experiência partilhada.
A obra parte do paganismo e da tradição para refletir sobre um conceito fundamental que atravessa todas as sociedades contemporâneas: a longa espera por um fim que sabemos que chegará, mas de que desconhecemos exatamente quando.
O que representa, para si, trazer esta criação a Almada e apresentá-la pela primeira vez no âmbito da Quinzena de Dança?
Para mim, é uma oportunidade de continuidade para continuar a desenvolver o meu trabalho artístico. É uma forma de continuar a criar redes e vínculos artísticos com festivais e entidades, mas, sobretudo, é uma oportunidade para continuar a fazer aquilo de que mais gosto: estabelecer uma ligação com os públicos e levá-los a refletir sobre temáticas e realidades que atravessam a nossa sociedade.
De que forma é que as tradições galegas e portuguesas foram traduzidas para a linguagem da dança contemporânea ao longo do processo de criação?
Não gosto muito de fazer “spoilers” sobre as obras, mas todo o imaginário em torno da morte, da escuridão e da despedida é transposto para a obra através de diferentes imagens e do uso da cor, elementos fundamentais na minha linha criativa. A partir daí, utilizámos diferentes metodologias de criação que acabam por se traduzir na dramaturgia e no movimento da peça.
Que papel teve o trabalho com os bailarinos da Companhia de Dança de Almada na construção do espetáculo? Houve algum aspeto que tenha surgido ou mudado durante o processo?
O papel das intérpretes é fundamental no meu trabalho. Lanço imagens e propostas que, através de ferramentas de improvisação e composição, fazem com que as intérpretes entrem no universo criativo e sejam elas a apresentar os materiais que depois vamos modificando e transformando, de modo a aproximá-los do imaginário da obra.
Este projeto é aquilo que é única e exclusivamente graças a elas. É algo que quero destacar especialmente, porque todas e cada uma das intérpretes se envolveram de forma absoluta neste processo, algo pelo qual estarei sempre eternamente agradecido.
O que gostaria que o público levasse consigo depois de assistir a “A Espera do Baleiro”?
Em primeiro lugar, que estabeleça uma ligação e viaje connosco por todo o universo da peça; que possa ser criado um tempo de pensamento e reflexão depois do espetáculo e que cada pessoa estabeleça uma ligação entre as suas próprias experiências e o conceito da obra.
34.ª Quinzena de Dança de Almada regressa de 25 de setembro a 11 de outubro







