Se este nível de manutenção pode ser atingido quando se aproxima um evento, aquilo que os residentes têm o direito de perguntar é por que razão não pode constituir o padrão habitual.
Sou residente na Sobreda e utilizador regular do Parque Multiusos. Por isso, acompanho há vários anos, de forma bastante próxima, a evolução e o estado de conservação daquele espaço.
No passado dia 10 de setembro, o parque apresentava-se, em parte significativa da sua extensão, num estado de conservação que considero digno daquele espaço: relva cortada, arbustos aparados e vegetação intervencionada, permitindo inclusivamente uma utilização mais confortável dos percursos pedonais.
E começo precisamente por reconhecer essa intervenção.
O problema é o contraste com aquilo que, demasiadas vezes, tenho encontrado no mesmo parque.
Ao longo dos últimos anos houve períodos em que a vegetação espontânea atingiu dimensões muito significativas, com ervas aproximadamente à altura dos joelhos. Arbustos e ramos chegaram a interferir com os percursos pedonais. Houve problemas prolongados de iluminação, deficiências nos sistemas de rega e situações recorrentes relacionadas com limpeza, resíduos e conservação geral do espaço.
Mesmo nessa intervenção de setembro, nem toda a extensão do parque apresentava o mesmo nível de tratamento. Sensivelmente a partir da zona do Monumento à Mulher, continuavam a ser visíveis diferenças na manutenção do espaço.
Mas havia uma coincidência difícil de ignorar. Nos dias 11, 12 e 13 de setembro realizou-se precisamente no Parque Multiusos da Sobreda o Jazz nas Vilas, promovido pela Junta de Freguesia de Charneca de Caparica e Sobreda.
Não disponho de elementos que me permitam afirmar que a intervenção realizada nos dias anteriores tenha resultado especificamente da preparação do evento.
Mas a proximidade temporal permite, pelo menos, fazer uma pergunta legítima: por que motivo não consegue o Parque Multiusos da Sobreda apresentar, regularmente ao longo do ano, um nível de conservação semelhante àquele que apresentou imediatamente antes da realização do Jazz nas Vilas?
A questão vai muito para além deste evento em concreto.
Considero que uma autarquia presta, antes de mais, serviços públicos. A manutenção dos espaços verdes, da iluminação, da limpeza, dos equipamentos e das condições de utilização quotidiana é uma das formas mais básicas e visíveis dessa prestação. Naturalmente, as iniciativas culturais podem ter o seu lugar. O que considero difícil de aceitar é que festas, festivais ou outros eventos coincidam com níveis de cuidado do espaço público que os residentes gostariam de encontrar durante todo o ano.
Daí a sugestão que deixei, deliberadamente com alguma ironia, às entidades a quem escrevi: se for preciso haver Jazz nas Vilas para termos o Parque Multiusos da Sobreda nestas condições, então que haja Jazz todos os meses. Nem sou particularmente fã do género, nem sequer considero que seja função principal das autarquias “animarem-nos”. Mas, por um parque nestas condições, estou disposto a ultrapassar ambas as questões.
Mais seriamente, o episódio deveria servir para demonstrar uma coisa simples: é possível ter o parque cuidado. Se este nível de manutenção pode ser atingido quando se aproxima um evento, aquilo que os residentes têm o direito de perguntar é por que razão não pode constituir o padrão habitual.
Enquanto contribuinte, é também assim que gostaria de reconhecer no espaço público o destino dos impostos municipais que pago, incluindo o IMI, não apenas nos dias que antecedem um festival, mas nas restantes semanas e meses do ano.
Não se trata, portanto, de pedir um parque preparado para receber visitantes.
Trata-se de pedir um parque preparado, todos os dias, para quem cá vive.






