Agostinho Costa, residente na Amadora
De novo no paredão. De novo o caminhar mais ritmado, a meta estava próxima. E, claro, a bola de Berlim, qual justo prémio para o vencedor como em Olímpia… Também aqui, na Costa da Caparica, eu o fora! Pois, para os de Olímpia, os louros; para mim, a bola!
Nove, oito, sete… Todos acompanhávamos a contagem descendente para a partida. Três, dois, um! Partimos. Era mais uma prova em que o sexto sentido participava. Esta, a Corrida Noturna Costa da Caparica. Nos inícios de Setembro, uma agradável noite de Verão. Éramos poucos, pouco menos da dúzia, que nos juntávamos aos dois mil e tantos participantes. Se calhar menos, dado haver coincidência com a Festa do Avante, que acontecia ali bem perto.
Seguíamos, passo acelerado, ao som do mar um pouco distante, à direita. Palmilhávamos o Paredão junto à Praia do Tarquínio. Parecia fácil… Porém, uns poucos centos de metros mais adiante, talvez a porca torcesse o rabo! Pois era a areia da praia que nos esperava. Ora, caminhar cerca de quatro quilómetros na areia da praia?, como se ressentiria a minha performance? Enfim, continuemos.
Uma ligeira brisa a nos afagar. Comigo seguiam a Anabela e a Teresa. Breve se começou a notar alguma areia no piso de asfalto. Virámos, ostensivamente, para a praia. E avançámos, Praia Nova, Praia da Saúde. O mar estava agora mais perto. As ondas eram bastante suaves, sempre constantes. O cheiro a maresia era mais perceptível. Passo a passo, salto a salto, lá seguíamos. A Teresa, muito conhecedora do ambiente, ia-nos servindo de cicerone. E referia-nos alguns pontos de interesse. Fixei-me no Restaurante Sunrise, até que ela o descreveu com uma certa ênfase. Talvez um destes dias pudéssemos, com ela, ali partilhar um bem saboroso almoço.
Ainda nos referiu, um pouco mais à frente, o “famoso bar”, famoso, pois que, em noites de fim de semana, faturava boas dezenas de milhar de euros. Só que eu, afinal, começava a ressentir-me do percurso. E já quase me arrastava. Ofegava autenticamente. Mas, logo a Teresa, após me ter ouvido dizer que queria parar um pouco, “respira fundo, respira fundo! Isto não é para fracos!” E, afinal, sim, a verdade é que comecei a sentir outro alento. Sei que ainda voltei a referir “Quero parar!”, mas já num tom de voz mais débil, já quase sem convicção. E, assim, com o meu redobrar de ânimo, demos a volta para o retorno, que nos era indicado pelo estafeta da caminhada postado nesse ponto, já na Praia da Mata.
Seguíamos, o mais possível, junto à areia molhada. Só que, como a maré estava a subir, não tínhamos espaço livre para aproveitar melhor chão. Assim que pisávamos areia mais direita, logo vinha uma onda e era preciso afastarmo-nos para não sermos molhados. Claro que não o conseguimos evitar sempre. E, por umas vezes, ainda a água me entrou nos sapatos, me molhou o fundo das calças do fato de treino. Mas, também, quem me mandou não ter vestido calções? Para uma prova daquelas teria sido o ideal. E, deste modo, ia colecionando areia, mais areia…
A noite totalmente escura, de autêntico breu. Nem uma luz, nem a lua, uma única estrela brilhava. Do lado de terra, lá mais para cima, começava a aparecer já uma ou outra. De vez em quando, passava por nós alguém com uma lâmpada acesa, foxe ou a luz do telemóvel. Seguíamos bastante dispersos, os que caminhávamos, sendo ultrapassados por aqueles que faziam a corrida. A certa altura, surge um parvalhão por detrás a gritar “Desviem-se, que estão a estorvar!! Como é óbvio, não deixámos de o invectivar, “Desvia-te tu. Passa mais junto ao mar, seu parvalhão!”. Mas continuámos, já bem senhores da nossa boa performance.
O cheiro a maresia, mesmo a peixe, por vezes, acentuava-se. Veio-me à lembrança a viagem que havia feito em julho do ano passado de Belém ao Cabo Espichel. Passámos no Blénios, uns quinze, no pneumático do Vasco, a uns duzentos metros mar adentro. Bonita manhã aquela, que nos proporcionou um encontro com muitos golfinhos! E, mesmo não tendo conseguido interagir com eles, talvez por ser de manhã, foi bem bonito o encontro com tão simpáticas criaturas.
De novo no paredão. De novo o caminhar mais ritmado, a meta estava próxima. E, claro, a bola de Berlim, qual justo prémio para o vencedor como em Olímpia… Também aqui, na Costa da Caparica, eu o fora! Pois, para os de Olímpia, os louros; para mim, a bola!






