A Voz aos Almadenses: “Almada está a empurrar os seus jovens para fora”

António Salgueiro, residente no Laranjeiro

Em Almada, a dependência de Lisboa para emprego não é um detalhe, é uma realidade estrutural. Grande parte das oportunidades está fora, e quem quer crescer profissionalmente acaba, muitas vezes, por ter de sair.

Disseram-nos, em tempos, que estudar era suficiente. Que, se fizéssemos o nosso caminho, tudo acabaria por se alinhar. Que o esforço compensava, que a formação abria portas e que o futuro dependia, sobretudo, de nós.

Hoje, essa promessa já não se cumpre da mesma forma.

Portugal tem, no geral, níveis de desemprego relativamente baixos. À primeira vista, isso poderia indicar um mercado de trabalho saudável. Mas quando se olha para os mais novos, o cenário muda. A taxa de desemprego jovem ronda os 18,5%. Na prática, significa que quase um em cada cinco jovens continua sem conseguir entrar no mercado de trabalho.

 

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O problema não é estudar pouco: é estudar e não conseguir entrar

Estudar mais, por si só, já não resolve. Há jovens formados que não conseguem trabalhar na sua área, outros que acabam por aceitar empregos abaixo da sua qualificação, e muitos que ficam presos num ciclo de estágios, contratos precários e tentativas que não dão em nada. O esforço existe. A preparação também. O que falta é a oportunidade.

Conheço alguns casos próximos, não só em Almada, mas também fora dela. Jovens com formação, esforço e vontade real de trabalhar na área em que se prepararam. E mesmo assim, não conseguem. Nem sequer são chamados para entrevistas. Nem em Lisboa, onde teoricamente as oportunidades são maiores.

Isto devia ser exceção. Está a tornar-se regra.

E não é por acaso. Há um empurrão silencioso a acontecer. Não é visível de imediato, não aparece em números isolados, mas sente-se no percurso de quem tenta começar. Um empurrão feito de portas fechadas, respostas que nunca chegam e oportunidades que não aparecem.

Em Almada, isto sente-se no dia a dia. A dependência de Lisboa para emprego não é um detalhe, é uma realidade estrutural. Grande parte das oportunidades está fora, e quem quer crescer profissionalmente acaba, muitas vezes, por ter de sair.

Há menos empresas com capacidade para absorver talento qualificado, menos diversidade de sectores e pouca margem para desenvolvimento profissional. A cidade funciona como ponto de partida, mas raramente como destino.

A consequência vê-se. Jovens que adiam sair de casa, não por escolha, mas por falta de alternativa. Outros que aceitam trabalhos que pouco têm a ver com aquilo que estudaram. E muitos que acabam por sair, não porque pretendem, mas porque não conseguem forma de construir aqui uma vida estável.

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Sair de casa deixa de ser opção

Quando sair deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade, há um problema. E esse problema não é apenas individual. Não é uma questão de esforço ou de mérito. É estrutural e coletivo. E tem impacto direto no futuro da cidade.

Almada continua a ser um bom ponto de partida. Tem localização, tem acesso a ensino, tem uma geração preparada. Mas falha no momento mais importante: quando é preciso dar continuidade.

Aqui, a resposta não tem de ser teórica. Pode ser prática. Criar um programa municipal que ligue diretamente jovens qualificados a pequenas e médias empresas locais, com períodos de integração real e não apenas estágios, seria um primeiro passo. Ao mesmo tempo, a redução de custos municipais para empresas que criem primeiros empregos qualificados em Almada poderia incentivar a retenção sem depender de grandes reformas nacionais.

 

Formar não chega. É preciso conseguir reter

Porque estudar já não é garantia de nada. E quando uma cidade forma jovens, mas não lhes dá espaço para começar, não os está apenas a perder. Está a empurrá-los para fora.

E uma cidade que empurra os seus jovens para fora não está só a perder pessoas. Está, lentamente, a perder o seu próprio futuro.

 

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