Museu Naval de Almada. Um futuro incógnito

Carlos Alves, vice-coordenador da Iniciativa Liberal de Almada e gestor do Património Cultural

Um museu encerrado não é um museu. Almada merece que o seu Museu Naval volte a ser o que foi concebido para ser: um lugar aberto, ao serviço da cidade, das suas escolas e de quem chega pelo rio.

Na semana em que foi apresentada a candidatura de Almada a Capital Portuguesa da Cultura, o futuro do Museu Naval de Almada permanece uma incógnita. O Museu Naval de Almada encerrou ao público a 30 de setembro de 2023, para trabalhos de manutenção, «por tempo ainda não determinado» — a expressão é do próprio Município —, interrompendo um mês antes do previsto a exposição temporária então patente. Passaram quase três anos. Não foi anunciada data de reabertura; não é conhecido calendário, orçamento ou procedimento contratual associado aos trabalhos invocados; e não foi prestada à comunidade qualquer informação sobre o destino e as condições de conservação do acervo e do fundo documental.

Neste mesmo período, o Município encerrou, interveio e reabriu, com comunicação pública, o Elevador Panorâmico da Boca do Vento, ao fim de dois meses de obras. Ao Elevador, dois meses e uma nota à imprensa; ao Museu Naval, quase três anos e o silêncio. A comparação mostra que, quando há vontade, o Município sabe executar, cumprir prazos e comunicar.

Convém recordar o que está em causa. O Museu Naval foi inaugurado em 1991 em parte das antigas instalações da Companhia Portuguesa de Pesca, no Olho de Boi. O museu nasceu, em larga medida, da doação da própria empresa, que laborou entre 1920 e 1984 e movimentou um dos maiores tráfegos nacionais de pesca de arrasto de alto mar. Em 2012, o Município ampliou-o, quadruplicando a área expositiva e dotando-o de centro de documentação, reservas e áreas técnicas, num investimento de cerca de 300 mil euros comparticipado por fundos comunitários. Dinheiro público, em parte europeu, hoje imobilizado atrás de uma porta fechada.

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A Lei-Quadro dos Museus Portugueses (Lei n.º 47/2004, de 19 de agosto) define o museu como instituição de carácter permanente que garante um destino unitário a um conjunto de bens culturais e lhes faculta acesso regular ao público, e impõe o desenvolvimento sistemático de programas de mediação cultural e atividades educativas. Ora, um museu encerrado por tempo indeterminado não interpreta, não expõe, não educa e não faculta acesso. Conserva apenas a designação. Não há museologia sem público, tal como não há escola sem alunos.

O Museu Naval não foi apenas encerrado ao público: foi retirado do mapa da oferta museológica municipal. Um museu que fecha pode reabrir; um museu que desaparece da lista arrisca-se a ser esquecido — primeiro por quem o visitava, depois por quem o tutela.

E não se diga que o problema é técnico. No concelho vizinho, o Núcleo Naval do Ecomuseu Municipal do Seixal, encerrado para obras de conservação e requalificação, reabriu em maio de 2023 com exposição de longa duração renovada. O encerramento prolongado de um núcleo museológico naval na margem sul do Tejo não é uma fatalidade técnica: é uma opção política.

Que perde Almada com esta ausência? Perde, desde logo, a memória: o Museu Naval é o lugar onde a história industrial e marítima do concelho se converte em património acessível a todos, e a comunidade fez dele o seu — existe uma associação de Amigos do Museu Naval de Almada, reconhecida no próprio preçário municipal.

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Perdem as escolas. O Centro de Documentação do museu foi expressamente dirigido à população em geral e à comunidade educativa em particular. Que aprendizagem se faz diante de uma porta fechada? Os agrupamentos de escolas e os estabelecimentos de ensino particular e cooperativo do concelho merecem um serviço educativo regular, com programa anual e gratuitidade para os grupos escolares de Almada.

Perde o turismo, num dos pontos onde a cidade tem mais fluxo. O Museu Naval situa-se no percurso ribeirinho servido pelo terminal de Cacilhas: um fluxo que poucos museus municipais do país têm à porta e que Almada, há quase três anos, não aproveita. A cerca de 150 metros do terminal de Cacilhas, Almada acolhe o núcleo museológico da Fragata D. Fernando II e Glória e do submarino Barracuda, dependente do Museu de Marinha; a escassos minutos a pé, o museu naval do próprio Município está fechado, sem que se conheça protocolo, bilhética conjunta ou programação comum entre os dois. Há um percurso naval de Cacilhas à espera de existir. Falta quem o desenhe.

Falta-lhe, por fim, um lugar na rede. A Rede Portuguesa de Museus integra atualmente 175 museus credenciados, entre os quais, na Península de Setúbal, os de Alcochete, do Seixal, de Sesimbra e de Setúbal. Almada, o concelho mais populoso da região — com cerca de 22% da população, segundo dados do próprio Município —, não tem um único. E a credenciação não é um selo decorativo: dá acesso ao programa de apoio financeiro da Rede, a ações de qualificação e formação técnica e a mecanismos de cooperação entre museus.

A alternativa é simples e não admite terceira via. Ou há vontade política de reabrir o Museu Naval — e então há data, orçamento e calendário; ou não há — e então a Câmara deve assumi-lo, com clareza, perante os almadenses. O que não é aceitável é o caminho seguido até agora: nem abrir, nem explicar, nem sequer manter o museu na lista.

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Um museu encerrado não é um museu. Almada merece que o seu Museu Naval volte a ser o que foi concebido para ser: um lugar aberto, ao serviço da cidade, das suas escolas e de quem chega pelo rio.

4 Comentários

  1. Houvesse visão e vontade, de quem está à frente do pelouro da cultura, Almada teria outras valências.
    Muito bem Carlos Alves, pelo texto,que talvez acorde a população de Almada.

  2. Agora a querer a CMA fazer um museu da água por razões oportunistas não deveria começar por aí até porque nem sequer vai concerteza validar a importância das três bocas aí ao lado… a cultura não é perioridade deste executivo decididamente.
    Luís Dias

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