Logo pela manhã, o bandoneon de Amaru e o cajón de Lya surpreenderam quem se encaminhava para apanhar o barco, no terminal fluvial de Cacilhas. Inspirada no cancioneiro popular sul-americano, a música interrompeu a pressa habitual, levando muitos a abrandar o passo para assistir à atuação e até para dançar. Alguns resistiram mesmo à urgência de chegar a horas: houve quem perdesse o barco para poder prolongar o momento.
Aos músicos juntou-se o ator João Tempera, que leu excertos de poemas e manifestos sobre cidades vibrantes. “As pessoas começam a dançar, algumas não se importaram de perder o barco e apanhar o seguinte para poderem ficar a darçar, felicíssimas”, conta ao ALMADENSE. A cena, improvável numa manhã de partidas apressadas, é um dos exemplos do que propõe o “Compasso para Parar” uma iniciativa que tem levado artistas de diferentes origens a percorrer ruas, jardins, praças, mercados e estabelecimentos comerciais de Almada, com atuações musicais em formato pop-up.
Iniciado em agosto, o programa já contou com a participação do músico de origem goesa Neil Fernandes, dos ucranianos Litá e do duo Parapente 700. Além de Cacilhas, a música já apareceu no jardim da Cova da Piedade e na rua dos Pescadores, na Costa da Caparica. Mas não se fica pelas praças ou pelos espaços habitualmente associados à cultura. Entra também em cafés, mercados municipais, livrarias, lojas de roupa, cabeleireiros e até em talhos, transformando espaços do quotidiano em palcos inesperados e surpreendendo quem está de passagem.
Levar a cultura ao encontro das pessoas

“São atuações que exploram o lado espontâneo”, explica João Tempera, um dos autores do projeto. A ideia nasceu da vontade de criar mais acontecimentos na cidade, ao ar livre, levando a cultura para “locais onde normalmente estas coisas não acontecem”.
Em vez de esperar que o público se desloque a um teatro ou a uma sala de espetáculos, o “Compasso para Parar” vai ao encontro das pessoas nos lugares onde estão. “Invertemos a ordem”, prossegue João Tempera. Desta forma, a iniciativa procura chegar também a quem habitualmente não participa em eventos culturais ou está mais “arredado destas vivências”. Qualquer pessoa pode encontrar a música pelo caminho.
No Café Central, em plena praça MFA, algumas pessoas aproximaram-se para assistir e outras levantaram-se para dançar, recorda o ator. O objetivo é “celebrar uma cidade vívida”, expressão usada por João Tempera. Neste contexto, o espaço público deixa de ser apenas o cenário da atuação e passa a fazer parte da experiência, cuja programação foi concebida pelo ator, juntamente com Joana Elisa, Luís Pulido e Susana Pires, da associação Casa Invisível.
Através de espetáculos pop-up inesperados, o projeto procura fomentar encontros entre pessoas que partilham os mesmos lugares, mas que muitas vezes vivem afastadas. “As cidades precisam de cultura a céu aberto, de espaços públicos vibrantes”, defende o ator. Por isso mesmo, a intenção deste projeto passa por promover a boa vizinhança, “trazendo alegria à cidade”. E a “música facilita”, acredita João Tempera, “tem essa capacidade de promover ligações”.
Um convite a abrandar

O convite a abrandar estende-se também à forma como vivemos os dias, numa rotina diária acelerada entre compromissos profissionais dos adultos e as atividades extracurriculares das crianças. “Queremos dar às pessoas uma razão para parar, escutar e descobrir a cidade de outra maneira, que as pessoas tirem os olhos do telemóvel, que possam refrear a pressa”, resume João Tempera.
O projeto encontrou inspiração no livro “O Lugar Onde Quero Estar”, de Shain Shapiro, que reflete sobre a forma como a música pode contribuir para melhorar as cidades. Dialoga também com o espírito do situacionismo, movimento artístico e intelectual que surgiu na década de 50 e que procurou transformar a experiência quotidiana e a relação das pessoas com o espaço urbano. Em Almada, essa vontade traduz-se agora em encontros breves, com o intuito de alterar por alguns minutos o ritmo de diferentes espaços.
A iniciativa conta com o apoio da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR LVT) e da Câmara Municipal de Almada (CMA), que integrou o projeto no programa Artéria, que pretende promover o comércio local e que incluiu também sessões de cinema ao ar livre.
A próxima atuação está marcada para esta quinta-feira, 22 de outubro. O La Miseria Deluxe, projeto de tango boémio do italiano Donatello Brida, vai percorrer cafés e esplanadas da rua Capitão Leitão, em Almada Velha, entre as 17h30 e as 19h30.
Festa de encerramento a 31 de outubro
O “Compasso para Parar” culmina a 31 de outubro, com uma festa que assinala o Dia Mundial das Cidades, em que estará presente também acarrinha da biblioteca Aletria. No largo Gabriel Pedro, entre as 18h e as 22h, os músicos e artistas que participaram no projeto vão juntar-se numa celebração que pretende prolongar o convívio para além das atuações. “Estão todos convidados a participar, podem trazer comes e bebes e fazemos a festa”.
Mas este não será um ponto final. A intenção é que o programa regresse no próximo ano, com a ambição de tornar os eventos mais regulares e distribuídos ao longo dos meses, mas mantendo o intuito de “ativar a cidade”, afirma o ator.
Uma extensão do projeto “Aletria”
Para João Tempera, o “Compasso para Parar” prolonga a missão da Aletria, um projeto inicialmente descrito como “biblioteca itinerante”, mas que agora os criadores preferem definir como “Centro cultural a céu aberto”, depois de perceberem que era mais do que uma biblioteca que empresta livros.
Há quatro anos que esta carrinha azul, forrada a madeira e carregada de livros, leva a leitura ao encontro das pessoas. Entre oficinas, atividades de desenho e conversas, a Aletria cruza literatura, ficção, poesia, teatro, ensaio e filosofia, afirmando-se também como um espaço de debate, criação e reflexão sobre a cidade.
O projeto já passou pela Escola Secundária Emídio Navarro, em Almada, onde dinamizou durante três anos o jornal «Mar da Palha», e por iniciativas como a Festa de Serralves, no Porto, o Festival Fólio, em Óbidos ou o Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa. O próximo passo vai passar pela recuperação de uma antiga biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, que deverá renascer como “Biblioteca da Democracia”, entre o Centro de Arte Moderna (CAM) e o Museu.







